LGBTQIAP+ | Romance Queer é possível?
- Eudes Bispo

- 25 de abr. de 2025
- 2 min de leitura

Por muito tempo, nos disseram que não. Que o amor LGBTQIAP+ era demais — estranho demais, trágico demais, impossível demais. Que não cabia nas grandes narrativas. Que só podia existir em cantos específicos da literatura, como se fosse um apêndice, um corpo estranho. Mas a verdade é simples e inegociável: o romance queer é não apenas possível — ele é necessário.
A teoria queer, ao longo das últimas décadas, vem nos oferecendo ferramentas para entender essa invisibilização. Autores como Michel Foucault e Eve Kosofsky Sedgwick apontam que a sexualidade sempre foi um campo de controle, normatização e exclusão. Foucault nos lembra que o discurso sobre o sexo nunca foi neutro — ele é construído historicamente para manter estruturas de poder. Sedgwick, por sua vez, mostra como os sistemas de opressão se reproduzem nos silêncios e nas entrelinhas da cultura. E isso se reflete diretamente na forma como corpos e afetos queer são representados — ou apagados — na literatura, no cinema, nas novelas, nos quadrinhos.

Quando aparecem, personagens LGBTQIAP+ são, muitas vezes, caricatos, trágicos ou cômicos. Raramente são protagonistas. Quase nunca têm finais felizes. Seus romances são tratados como desvios, suas sexualidades como conflitos, seus corpos como fetiches ou ameaças. É como se só pudéssemos existir na dor, no exagero ou no escárnio.
É exaustivo.
Séries LGBTQIAP+ são canceladas com uma frequência assustadora. A morte, o preconceito, o HIV, o sofrimento — esses temas dominam as narrativas queer premiadas, como se fôssemos incapazes de protagonizar histórias de amor, de heroísmo, de redenção. Como se a felicidade LGBTQIAP+ fosse inaceitável.
Mas nós sabemos: isso não é tudo o que somos.

E é por isso que escrevo.
Escrevo romances com protagonismo queer porque quero — e preciso — me ver. Quero escrever personagens LGBTQIAP+ que amam, que lutam, que triunfam. Que choram, sim, mas também dançam. Que enfrentam o luto, o preconceito, a dor, mas que também têm espaço para a glória, para o afeto, para o riso, para o futuro.
Quero personagens queer que sejam tão complexos, instigantes e inesquecíveis quanto qualquer outro protagonista de franquias gigantes. Por que não um herói queer que salve o mundo? Por que não o cavaleiro, o mago, o detetive, o agente secreto queer? Por que não um amor queer épico, que não precise pedir desculpas para existir?
Falar sobre amor queer e vivências queer não é algo limitado ao gênero romance. É algo que pode — e deve — estar presente na fantasia, no terror, na ação, no drama, na ficção científica. Não somos coadjuvantes da nossa própria existência. Somos protagonistas, somos criadores de mundos, somos possibilidades infinitas.
Romance queer é mais do que possível.
É urgente.
É resistência.
É futuro.


Comentários